Ariane Polvani - Fui com um grupo de amigos muito grande e encontrei mais um monte de gente que nunca imaginei encontrar num protesto. Além de não ver UM policial durante toda a manifestação e UM ato de violência ou depredação de patrimônio público, pude perceber que o pessoal que estava ao meu redor realmente estava lá contra o aumento da tarifa. A manifestação foi legítima. O único momento meio chato que presenciei foi no começo: um confronto nada a ver entre os “sem partido” e os “com partido”. Galera gritava de um lado “Sem partido! Sem partido!”, e outra galera respondia do outro “Vinagre ou partido, é tudo permitido!”. Tá, gente… tanto faz. Andem aí pela diminuição da tarifa e fiquem de boa. Mas também isso não fez a menor diferença… esse desentendimento durou nada mais que cinco minutos. No mais, a galera estava na maior paz, amor e good vibes aqui em São Paulo… tinha crianças, jovens, velhinhos, um grupo de mães que arrancou suspiro de todo mundo, um mini-carro de som que alegrou a molecada, um cara que levou uma instalação feita de coxinhas e papeleão (e acontece de ser meu amigo) e uma porrada de “playboy”, que tem sim dinheiro para pagar o ônibus, taxi e ainda por cima tem carro. Mas, gente, pelo amor de Deus… isso não interessa, né? Parem com esse discurso burro e capitalista porque ele já é muito velho e até Arnaldo Jabor já percebeu. Voltando para as redes sociais, encontrei algumas pessoas fazendo piada ou criticando. Para esses, a pauta é o pessoal que foi protestar só para postar foto no Instagram, “para falar que foi” e as “modeletes da passeata”. Tipo… nada a ver, cara! Pelo menos o povo foi pra rua e ajudou a fazer história. E você que ficou com a bunda no sofá assistindo novela?

Paula Roschel - Eu não pensei que presenciaria algo como ontem tão cedo aqui no Brasil. Eu estava muito descrente, pois o que vemos por aí é descaso de quem elegemos, um sistema que parece tão podre por dentro que quem entra, mesmo com boa intenção, acaba se corrompendo e uma força policial que estava mais contra do que a favor da população. Mas ontem, depois de andar uns 10 quilometros, lá em cima na Brigadeiro, olhei para trás, cansada (afinal, não sou lá uma atleta), e vi um mar de gente cantando. Um mar sem fim (por isso não acreditem quando falam que foram apenas sessenta e tantos mil, era muito mais do que isso aqui em São Paulo)! Quando alguém se exaltava, outros pediam para parar. Muitos se ajudaram, deram risada, se divertiram tentando mudar o país, mesmo que naquele momento. No final da noite não existia, ali na Paulista, aquele pesadelo de quinta-feira. Agora eu quero ver isso virar resultado, além de desejar muito um povo mais engajado. Se os veículos tradicionais não deram tanta voz ao povo, a internet e quilómetros de vias estão aí para nos unir. Viva!

Fernanda Pires: Hoje eu acordei e posso dizer que realizei um sonho. Aos 32 anos de vida me sinto totalmente feliz e realizada, porque sou brasileira, porque o meu país é o país mais lindo do mundo e porque o meu povo é o povo mais guerreiro que existe. Caminhar oito horas sem parar entre subidas e descidas pelo vale de São Paulo, não é pra qualquer um. É pra todos! Foi lindo! O gigante acordou! E o gigante meu amigo, é o povo brasileiro, que nunca mais vai ser feito de idiota. Que orgulho desse meu Brasil! Depois de tantos anos boiando na frustração, eu sempre soube e é por isso que nunca te abandonei e nunca vou te abandonar!

Rafael Argenta: A manifestação pacífica foi grandiosa! Sentir na pele a emoção de ver o povo cantando o Hino Nacional para lavar as injustiças e sujeiras que nos forçam a engolir, isso sim é ter orgulho de ser brasileiro. A infeliz lembrança que tenho de ouvir o povo cantando o Hino Nacional é sempre em jogos de futebol e a diferença entre os dois sentimentos é brutal. Ouvir o povo cantando em prol da justiça e por nossos direitos é muito mais bonito e honroso.

Rapha Bento: Estava emocionado. Quem já participou de manifestações em prol de todos (onde os manifestantes são uma minoria oprimida pelos olhos da massa e dá até vergonha de cantar os coros porque parece que você tá fazendo algo errado) sabe do que estou falando. Senti que a maioria começou a perceber que não somos tão bobos assim como pensam os governantes e que o bem estar comum depende de todos. Além do fato de ter feito cair a máscara da população em relação à polícia despreparada, preconceituosa e braço de um Estado hegemônico que segrega, usurpa, inferioriza, desmoraliza, despreza e abandona a esmagadora parcela da sociedade alimentando uma desigualdade sem tamanho identificando-a por classes C,D e E de forma imunda. Talvez tenha sido o ponta pé inicial para mudanças maiores no futuro.

Tiago Gass: O Brasil dá fortes indícios de que acordou para a realidade das coisa que acontecem na política. Ao sair da redação e caminhar mais de três quilómetros para chegar ao Lago da Batata, não descartava mais um dia de confrontos. Lá me assustei com a quantidade de pessoas, a maioria sorrindo por saber que as coisas precisam mudar para melhor, mas fiquei apreensivo quando vi que as autoridades estavam usando um drone para monitorar a nossa saída. pensei que logo na esquina poderíamos ser emboscados. Mas não foi o que aconteceu. Fomos emboscados mesmo por uma quantidade enorme de pessoas em janelas, para nos apoiar na caminhada e mostrar que também querem mudanças. Por isso, depois de anos me sentindo envergonhado por ser brasileiro, voltei a ter orgulho, o mesmo que sentia quando saí do Brasil em 2002, para ganhar a vida em território desconhecido. Todo o trajeto deu uns 13 quilômetros e foi extremamente agradável. Nem lixo eu vi sendo jogado no chão. E ao subirmos a Brigadeiro Luiz Antônio, com as pernas doendo, parecia que estávamos reconquistando o Brasil. Mas uma batalha ganha! Não é uma guerra ganha, a corrupção intrinsecamente ligada a política do pais não sairá facilmente do poder. Por isso gente, #vemprarua, que tem muito mais pela frente.

Julia Petit: Dificil falar muito mais do que o pessoal da redação do Petiscos já falou. O que me impressionou mais foi o sentimento de poder que dá ao ver as ruas dominadas por pessoas (pra mim mais de 200.000) caminhando em sintonia. Quem estava de carro, com raras exceções, esperava pacientemente. Acho que todo mundo deveria ir, pelo menos, a uma manifestação. Essa sensação de que somos donos da cidade, estado, país é muito importante. Somos MESMO donos do país e poiliticos eleitos ou não recebem salários pagos por nós e devem prestar contas de TUDO que fazem ou que vão fazer. E se ele não respeitam a população, então que tenham medo dela. Só não pode desanimar porque tem muita coisa errada pra ser resolvida no Brasil. Vamos em frente!

Foto: Petiscos e Arthur Soares.

A rua é nossa