Enviado por: Veronica Botelho / Florença – Itália
Águas de um azul caribenho, infinita fauna marinha, formações rochosas exuberantes. Não são características, apenas, das praias brasileiras. Um poble na província de Girona, Comunidade Autônoma da Catalunha – Espanha, chamado de Cadaqués enumera todos os requisitos de um paraíso. Com a brisa perfumada do Mediterrâneo, de uma antiga vila de pescadores, Cadaqués, se tornou uma das rotas mais exclusivas da Europa. Conservando todo seu charme tradicional, com casas caiadas de branco e ruas estreitas e sinuosas. Suas praias e a vila são consideradas um paraíso conservado.

O fato que Cadaqués se encontre entre as rochas e em contato com o mar foi determinante para que o poble ficasse praticamente ilhado do resto do continente até finais do séc XIX. Aonde a sua única saída era o oceano.
Os primeiros documentos que fazem referência a Cadaqués são datados cerca do ano 1000. Da antiga vila fortificada ainda se encontra um Baluard – fortificação de forma pentagonal nos ângulos de um recinto muralhado, que atualmente é a sede da Prefeitura e um portal de arcos rebaixado que dava à praia.
No ponto mais alto do núcleo antigo encontramos a Igreja Santa Maria. É um edifício Gótico, iniciado meados do séc. XVI e sendo concluído no séc. XVIII. A relação de Cadaqués com a arte se consolida através do pintor Salvador Dalí, que apesar de nascer em Figueres, sempre esteve vinculado a Cadaqués porque seu pai era tabelião local. Ou seja, Dalí viveu até os 14 anos na localidade e voltou anos mais tarde, depois da sua temporada em Nova York para estabelecer sua moradia, construindo uma casa em Port-lligat (porto natural de Cadaqués) em homenagem a sua mulher Gala.
A chegada à Cadaqués impressiona sempre, seja por mar, seja por montanha, e cada vez é uma surpresa, cada temporada tem seus encantos próprios. Pequenas calas (pequenas praias entre as rocas) ideais para meditar, escrever, deleitar… O que a fez conhecida entre o mundo artístico boêmio.
Pablo Picasso, Federico García Lorca, Jean Aubert, Luis Buñuel, entre muitos outros, chegaram a morar uma temporada em Cadaqués. E até hoje podemos ver personalidades da literatura, da pintura, da música, do cinema… circulando tranquilamente por suas ruas estreitas e banhando-se em suas calas.
Quem busca tranquilidade, beleza, inspiração… Cadaqués é o lugar certo! O que não significa que seja uma cidade pacata em seu sentido mais amplo, existe inclusive uma legenda que fala que os que vivem lá estam “tocats per la tramuntana”₁ – ( Tramuntana: vento seco e forte que vem do norte, e por sua força dizem que os que vivem em contato direto com ele acabam se tornando meio “loucos” ou será que não poderíamos falar meio gênios?! )
Águas cristalinas, calas discretas, simpáticos moradores, gastronomia irresistível (mesmo a quem está de dieta) e seu ambiente artístico cultural fazem de Cadaqués um lugar ideal para aqueles que procuram férias com qualidade, bom gosto, cultura e principalmente, para os viajantes que fogem da mesmice. É interessante ressaltar que mesmo entre os diferentes tipos de turistas, existem algo em comum a todos: o respeito e a preservação do lugar.
Quando se vai a pela primeira vez todo mundo acaba batizando um lugarzinho de seu, e eu não poderia ser diferente, o meu lugar secreto é o Restaurante Cap de Creus, que fica no alto de uma montanha do Parc Natural Cap de Creus, o prédio é um antigo quartel general restruturado. A cozinha é uma mistura de mediterrânea com hindu, o proprietário é um inglês, que procurando um lugar tranquilo para fazer sua tese de doutorado sobre genética e com uma amor pela gastronomia, se apaixonou pelo lugar. O melhor desse restaurante é a possibilidade de se hospedar em um dos quatro apartamentos, sem dúvida uma experiência inesquecível, o por do sol e alvorada mais lindos que eu já vi.
Se a intenção é conhecer o entorno, a melhor pedida é visitar o Museu De Salvador Dalí, em Figueres.
Durante à tarde pode-se contemplar o mar e o movimento da cidade, tomando uma clara (bebida composta de metade cerveja e metade refrigerante de limão) no Casino, um bar que fica bem em frente ao mar na rua principal onde os moradores se reúnem para jogar carta, tomar o cafezinho ou simplesmente observar o que acontece: o pôr-do-sol e as crianças brincando. À noite o movimento não é menor, nem hoje nem antigamente, inclusive há relatos que na época da ditadura não podia fazer festa depois das 00h, Dalí e seu grupo de amigos percorriam quilômetros e mais quilômetros de subida até chegarem a um lugar secreto, ao menos para os controles de Franco, no qual seguiam com a música, bebidas, recitações, criações…
O que é figura noturna presente desde época de Dalí até hoje é o pub/bar L´Hostal, situado na praça da cidade beira mar, bem peculiar e emblemático. Nas suas paredes podemos apreciar autógrafos e fotos de várias personalidades das artes, da música, da literatura que estiveram no local. Na temporada alta L´Hostal abre todos os dias e alguns com música ao vivo. Na baixa temporada, os frequentadores são os moradores da praia e os que preferem uma Cadaqués mais tranquila, abre apenas nos finais de semana. O estilo musical é mais um dos atrativos do local, música dos anos 50 aos 80, principalmente rock. Outro fato que chama a atenção são as velas, com mais de 20 anos, em cima das mesas, e da barra. Desde que começou cada noite se acende uma vela, com os anos essas velas foram adquirindo formas e tamanhos. Outro bar, que também, merece destaque é o Tropical. Parece um bosque muito verde com mesas cobertas e ao ar livre. Sugestão para um bom jogo de sinuca, música de qualidade (cada ano no verão tem um Dj convidado) e deliciosos coquetéis.
Definitivamente Cadaqués é um paraíso que vale a pena ser visitado, pelo que é, e pelo seu entorno. Para quem gosta de movimento, julho, agosto, início de setembro e datas festivas; pra quem busca tranquilidade, o resto do ano, menos nas datas festivas, principalmente Semana Santa, Diada Catalana (11/09), Natal e Réveillon.

Como dizem por lá: “Cadaqués i res més” que traduzido literalmente seria: Cadaqués e nada mais. Essa é a sensação que se sente desde a primeira vez, primeira porque todos que lá vão, acabam voltando.
Fotos: Veronica Botelho.
Postado por: Petisquete