Ele já foi apenas o mocinho, mas de algum tempo pra cá o filtro solar virou alvo de polêmicas envolvendo substâncias tóxicas. Desde o seu surgimento em larga escala, para proteger a pele de soldados durante a Segunda Guerra Mundial, o produto tem passado por mudanças. Agora, então, chegou a hora de questionar o parabeno, a vitamina A e oxibenzona. Uma das minhas fontes de pesquisa foi a organização sem fins lucrativos EWG, Environmental Working Group, que tem como missão usar o poder da comunicação para proteger a saúde das pessoas e do meio-ambiente. Dentro deste site você encontra uma série de listas contendo protetores, maquiagem e outros produtos “testados e aprovados” dentro da política deles, clique aqui para navegar. Não somos especialistas, mas conversamos com a dermatologista Lucia Mandel sobre o assunto. Confira:

Petiscos: Como posso descobrir se o meu filtro solar possui algum componente listado como de risco, por exemplo, o parabeno?

Lucia Mandel: É interessante adquirir o hábito de ler rótulos. A listagem dos componentes químicos deve estar presente na embalagem dos produtos. Às vezes é impressa na caixa, outras vezes no próprio frasco de filtro solar.

P: Quais são as substâncias encontradas em maquiagens e cosméticos que são comprovadas cientificamente como nocivas?

L: Existe polêmica acerca dos parabenos (methylparaben, propylparaben, butylparaben, benzylparaben). Eles são conservantes usados em cosméticos para prevenir a proliferação de microorganismos (como bactérias e fungos), aumentando a estabilidade e a vida útil do produto, e também protegendo o consumidor de infecções ou reações causadas por produtos contaminados. Os parabenos são encontrados em filtro solares, cosméticos, maquiagens, hidratantes, produtos para cabelos e produtos para barbear.

P: Qual o real risco? O que fazer para evitar?

L: A polêmica sobre a presença de parabenos se deve a uma hipótese de que eles aumentariam a predisposição a câncer de mama. Um estudo de 2004 (Darbre, Journal of Applied Toxicology) detectou a presença de parabenos em tumores de mama. O mesmo estudo associou essa informação ao fato de que os parabenos têm uma ação semelhante a do estrógeno, hormônio feminino que, este sim, tem influência sobre o câncer de mama. Este estudo foi seriamente debatido e questionado pela comunidade científica. A potência dos parabenos com relação à ação estrogênica (ou seja, do hormônio feminino) é muito pequena. Há um estudo que mostra que essa potência é 10.000 a 100.000 vezes menor que a do estradiol, hormônio que as mulheres têm naturalmente no organismo. Além disso, os parabenos são usados em concentrações muito pequenas (geralmente de 0.01 a 0.3%, quando o nível de segurança estimado chega a 25%). Assim, apesar de a polêmica sobre uso dos parabenos existir, até o momento não existem evidências de que o uso do produto tal como é feito hoje em dia é realmente preocupante, e essa informação é endossada pelo FDA. Mas se mesmo assim você quiser evitar substâncias com parabenos, é necessário habituar-se a ler rótulos. Devido a essa polêmica, há produtos que estampam na embalagem o fato de serem livres de parabeno, ou paraben-free (se o rótulo for em inglês). Atenção ao fato de que as inscrições de “orgânico” ou “natural” nem sempre são garantia de produto livre de parabenos. Atenção também ao fato de que PABA-free trata-se de outra informação. PABA não é parabeno. É uma substancia que confere proteção solar e, por isso, pode entrar na composição de filtros solares. No entanto, o PABA tem alto poder de causar alergias, e por isso muitos filtros solares são PABA-free.

P: Existem produtos livres destas substâncias que você indicaria?

L: No momento, não existem evidências científicas de que os parabenos tenham real ligação com câncer de mama. Os parabenos são bons conservantes e previnem a proliferação de microorganismos que podem ser nocivos. Assim, eu não me preocupo em evitar o uso de parabenos. Existem produtos feitos com outros conservantes, e existem até conservantes feitos a partir de plantas. Mas, na minha opinião, isso não deve ser uma preocupação, e não é necessário evitar filtros solares que contenham parabenos nas concentrações normalmente usadas (de 0.01 a 0.3%). Quanto ao potencial individual de se desenvolver alergias a componentes presentes nos filtros solares, isso deve ser avaliado individualmente. Desta maneira, a pessoa sensível a determinada substância química deve evitar contato com esta substância específica, e isso deve ser orientado pelo médico (dermatologista ou alergista), de maneira individual.

Foto: Reprodução.

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